Mário Quintana

Costumo dizer que Mário Quintana foi o meu primeiro amor. Meu primeiro poeta amado. Aquele que, nos meus momentos bons e ruins estava ali. Cheio de letras e de ternura.
As primeiras (e mais acessíveis) coisas que a gente encontra sobre poetas, ironicamente, saem da tela de um computador. É a era da informática. Acho que foi assim que descobri o meu primeiro poema de Quintana. Quis um livro dele a todo custo.
Em uma tarde ociosa, subi numa cadeira e cheguei à mais alta prateleira da estante de livros do meu pai de onde vi de longe o “Caderno H” de Mário Quintana. O título não era estranho pra mim e eu pude constatar a minha melhor descoberta naquele dia.Um livro velho, de capa laranja, alguma edição de mil novecentos e setenta e alguma coisa. As folhinhas quase soltas...
Quando papai chegou do trabalho perguntei se podia ficar com o livro pra mim. De forma meio desconcentrada no que estava dizendo, ele fez sinais que sim. Antes de ler, encapei, coloquei meu nome (todos os meus livros têm data e meu nome, é mania)... Ainda hoje o tenho com todas as inscrições sobre os significados de palavras, hoje, tão óbvias para mim (naquele tempo eu não sabia o que era “afônico”), além dos papos que eu tinha com ele ao comentar os poemas lidos.
Ali pude encontrar as mais belas coisas que eu li até hoje. Poemas simples que me deslumbraram no início da adolescência e que hoje me deslumbram da mesma forma. E que vão crescer comigo, em todos os sentidos.
A ironia de Mário Quintana sempre foi o que mais me impressionou. “Milagre não é transformar pedras em pães ou água em vinho! Milagre é acreditarem nisso tudo!”. Há algo dele que diz mais ou menos isso. Que n(o)s perdoem os católicos fervorosos... E “como são maltratados esses Cristos! Principalmente pelos escultores”...
O tom nostálgico de sua poesia também me encanta. A alusão à infância e constante busca do que é simples, porém belo... Do vento que, infelizmente não tem cor. Dos passarinhos que mesmo engaiolados sentem-se felizes. E das formiguinhas que mais parecem umas formiguinhas!
2006 é o ano do centenário do poeta da dor, poeta do amor... do meu poeta. Eterno nos seus quintanares. Quintana.
Escrito por mari às 22h06
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